Adoro portas.
Gosto de fotografá-las. Eu que não percebo nada de fotografia.
Tenho muitas vezes este pensamento de que gostava de ter uma máquina fotográfica incorporada nos olhos. Quando quisesse captar um momento único bastava fazer "click" e já está. É que no processo de agarrar a câmara ou um telemóvel, o momento perde-se. Passa.
Acabo por fazer esse "click" em pensamento quando quero registar algo e gravo esses momentos na memória. Mas tenho medo que a memória me falhe, um dia...
Não costumo tirar mil fotos por aí. Não ando com máquina, e pouco o faço com o telemóvel, mas gosto muito de fotografia. Gosto da ideia de fotografar. A foto é um ponto de vista do fotógrafo. O mesmo momento é captado de ângulos diferentes e de modo diferente consoante quem fotografa, quem vê. Ter uma boa máquina não faz de uma pessoa um bom fotógrafo. Tem tudo que ver com o momento. O timming de fazer o "click". A perspicácia para captar, a criatividade para ver num simples momento, uma história. Perceber o momento exacto. Nem antes, nem depois. E depois tem a ver com a sensibilidade da pessoa e o modo como olha para as coisas. Não é para qualquer um.
Através da fotografia vemos o modo como a pessoa vê o mundo.
A qualidade da fotografia ... isso é outra coisa. Uma boa câmara, um filtro, um instagram... Isso, todos conseguem. Boas fotos, só alguns.
Eu não sou desses alguns, eu não sei nada de fotografia, nem sei tirar partido de uma câmara, mas aprecio os momentos, tanto que maior parte das vezes nem os fotografo, para não os perder.
Adoro portas. Adoro janelas também... Mas adoro mais ainda portas.
Não sei porquê. São entradas de castelos. Portais para mundos. Viagens no tempo, no espaço. Cada porta tem uma história. Depois há a questão estética, há portas lindas, feias, com cores, sem cor, velhas, novas, materiais diferentes, banais, estreitas, altas, baixas, largas, baratas, caras. Vês muito numa porta.
Janelas são brechas para mundos. Deixam-te ver sem te deixar entrar. Matas a curiosidade, apenas.
As portas são o acesso a todo um mundo. Um espaço cheio de algo de alguém. Ou entras, ou ficas.
Esta porta não é nada de especial. Não é bonita. É velha. É de alumínio. É a porta substituta de uma porta branca, de madeira.
Mas é uma porta única.
Esta porta separa a vida real de quase 30 anos de memórias. Esta porta é mágica. Esta porta é minha. Por trás desta porta estão todas as emoções de uma criança, de uma adolescente, de uma mulher. Está um amor que já não posso viver. Está a lembrança de pessoas que já não posso abraçar, mas gostava. O interior como eu me lembro, já não existe. Só existe nos meus sonhos, nos meus pensamentos, no meu coração. Não sei o que está do outro lado, há anos que não entro nesta casa. Isso torna a coisa ainda mais interessante porque significa que por trás desta porta existem dois mundos: o das minhas memórias e o real.
Hoje parei deste lado. Tive vontade de tocar á campainha ou bater á porta. A campainha tão alta. Lembro- me de ainda não lhe chegar. Lembro- me de quando lhe comecei a chegar.
Por segundos imaginei o que aconteceria se lhe tocasse. Nos meus ouvidos guardo o som do trinco tão característico. Consigo imaginar a minha avó a percorrer o longo corredor até abrir a porta e...
Não.
Se eu tocasse á campainha não era ela que me abriria a porta. O corredor já não terá a mesma cor, o mesmo tapete, os mesmos sofás. O cheiro não será o mesmo.
Há coisas que nunca recuperaremos.
Fiquei uns segundos do lado de cá. Olhei a parede da frente e vi marcas da nossa infância. Recordei momentos ali... naquela rua. Aquela rua é minha, aquela casa também. Esta porta é minha. Se todo este mundo está dentro do meu corpo, como pode não ser? É e será.
A vida é isto. Momentos. Pessoas. Memórias.
"click"
Um dia, não restará nada mais. Isto é tudo o que somos. É tudo o que temos.
Será tudo o que levaremos daqui.
bacci
#Peniche

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