No outro dia fui ao veterinário com o C. e levámos o Max.
O Max tem 16 anos. Segundo o veterinário está a viver um ou dois anos de bónus, ou seja, maior parte dos cães tipo Max, não vivem tanto.
Na verdade o Max está muito velhinho. Nós sentimos a diferença porque estivemos 5 meses sem o ver.
Enquanto o via no veterinário dei por mim a pensar que os animais vivem tempo de menos. 15 anos
( a média) é pouco. Não chega. Não nos dá tempo. Eu queria que eles nos durassem uma vida. Queria não ter que os ver envelhecer. Eu lido mal com isso. Com o VER envelhecer, com a morte dos OUTROS.
O C. faz 30 anos daqui a uns meses. Isso significa que metade da vida dele foi ao lado daquele cão. Ele cresceu com ele. Como é que poderá não ficar destroçado de o ver envelhecer?
Chegámos a uma altura em que todos os problemas do Max já vieram para ficar. Um tumor num dedo, o fígado a falhar, problemas na próstata, corpo inchado, surdez, articulações frágeis. O corpo começa a deformar.
Nada disto é reversível. Ele está velhinho. Agora é minimizar a dor e dar-lhe o máximo conforto nesta recta final. " Recta final" é um termo cruel, eu sei. E deixa-me com os olhos marejados, mas é a verdade. Se o Max fosse uma pessoa,tinha cento e poucos anos. Sabemos que em termos de idade é a recta final. Independentemente de como a pessoa estiver.
O Max tem uma companheira, a Nasha. Também sénior, com menos um ano.
Em casa dos meus pais temos o Baltazar, com 15 anos. O Balta tem esta idade mas parece jovem, tirando os pelos branquinhos. Tem 15 anos.
Eles vivem pouco. Queria que eles me durassem uma vida. Queria chegar aos 90 e dizer-lhes ao ouvido "Estamos velhinhos, mas juntos". Não quero ver o meu amigo partir.
Durante a minha vida já perdi alguns... humanos e animais, e o buraco que nos deixam no peito é igual. Não lido bem com isso, não gosto, não deveríamos ter que passar por isso, NUNCA.
" ah, mas a morte também nos ensina a dar valor.... e tal..."
É tudo verdade, mas eu preferia tê-los cá comigo.
No veterinário estava um senhor com os seus cães. Á porta tinha uma carrinha com uma caixa preta de acrílico atrelada. Tinha 4 cães. Ia entrando e saindo com eles á vez, mas enquanto entrava, os outros esperavam dentro da caixa, ao sol. A um sol que não nos permitia estar na rua. Calor e sem vento.
Ao fim de quase uma hora dirigi-me á sra. da clínica perguntando se ela não queria pedir ao sr. que mudasse a carrinha de lugar porque os cães estavam ao sol. Ela sorriu e disse " O sr. é caçador... ele não vai ligar a essas coisas. E este nem é dos piores, este até os trata bem. Percebo-a muito bem, a mim também me faz confusão, mas..."
Ela foi la dentro e voltou com um sorriso triste abanando negativamente a cabeça dizendo " Ele diz que não demora".
Estávamos ali há quase uma hora.
O sr. saiu e uma senhora que esperava com o seu cão dirigiu-se a ele dizendo que os cães estavam ao sol e que não era correcto. Estavam fechados, numa caixa, ao sol. Ao que o sr. respondeu : "Ahhh, não se preocupe, são cães de caça. Eles estão habituados.
A conversa desenrolou-se e eu dei a minha opinião, mas o sr. concluía que eles estavam habituados a isso e muito mais. O Sr. faz km e km com os cães ali dentro, eles passam horas e horas no campo ao sol e "gostam". E no Inverno aguentam temperaturas frias e horríveis que nem ele sabe como aguentam, mas aguentam porque estão habituados e "gostam".
"A mais velhinha já tem 15 anos" disse ele com pena.
15 anos é pouco. Nós queremo- los cá mais tempo. Nisso concordo com ele.
Mas se calhar ainda bem que eles só duram 15 anos.

